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segunda-feira, 19 de maio de 2008

Paulistanos: incomodamente ternos

São Paulo tem a fama de ser uma cidade fria, não só em seu clima (que nesses últimos dias tem confirmado essa máxima, mas que em boa parte do ano a contraria com dias sufocantes) como também nas relações entre as pessoas. Pois bem, utilizando-se de um olhar mais distanciado essa frieza paulistana até se confirma, mas uma pequena faísca pode esquentar essa alma que vive em uma cidade que a reprime e a mantém o tempo todo ressabiada. O mais interessante disso é, como tenho reparado, que quase sempre tal faísca é provocada pelo incômodo.

Neste último sábado fiz algo que tenho feito muito pouco: tomei um ônibus. Esse estava relativamente vazio e com alguns lugares vagos. Sentei-me naquele banco do fundo, no acento central de frente para o corredor, aquele em que ficamos sempre tensos imaginando que uma freada mais brusca do motorista nos fará ir conversar com ele, com a cara grudada no pára-brisa. Depois de acomodado olho para frente e reparo em um monitorzinho de plasma, que incrivelmente já estão deixando de ser modernos, com a imagem de um rosto feminino se maquiando e dando instruções sobre como se maquiar. Já estava pensando no poder hipnótico que essas telinhas têm, todos em silêncio compenetrados na lição de beleza (beleza bem discutível aliás, a mulher estava com a cara pintada como uma boneca, esse tipo de exagero só pode ser para incentivar o maior consumo de cosméticos), quando alguém a meu lado dirige-se a mim reclamando que achava ridícula a programação das tais telinhas e que devia-se veicular coisas mais úteis e interessantes. Concordei com o rapaz e começamos a tirar um sarro da programação da TV Buzão, assim tivemos uma viagem rápida com um papo bacana. Após algum tempo, vendo duas senhoras começarem a conversar sobre a falta de educação dos motoristas que não as deixavam atravessarem a rua, pus-me a lembrar de outras situações que vivi ou presenciei e reparei que quase sempre essas conversações são ocasionadas por fatos que incomodaram os interlocutores.

Assim sendo, pude listar alguns locais mais propícios a essas breves amizades: ônibus, trens e metrôs (especialmente os lotados e atrasados), repartições públicas (com seus funcionários sempre prontos a te ignorar), hospitais e, sobretudo, as filas de banco (principalmente quando pensamos em seus lucros anuais absurdos divulgados pela mídia). Esta solidariedade vinda da cumplicidade em um momento de incômodo parece ser a mesma que percebemos em grande escala, quando acontecem grandes tragédias e as pessoas se mobilizam para ajudar a desconhecidos. Claro que não estou aqui tratando dessas grandes desgraças, mas de pequenas situações cotidianas que incomodam e atrapalham a vida das pessoas. Nos grandes centros urbanos as pessoas estão sempre muito tensas e são educadas a desconfiarem de tudo e de todos a sua volta. O caso específico de São Paulo parece um pouco pior, essa tensão alcança níveis estratosféricos e não há grandes válvulas de escape, como a praia para o carioca, por exemplo. Para qualquer lugar onde olhemos a cidade nos agride, com um cinza bélico, um cheiro químico e uma barulheira que nem ouvimos mais, porém nos perturba sigilosamente. Isso tudo vai minando a alma paulistana e a deixando cada vez mais dura, calejada. No entanto essa dureza está sempre sujeita a um enternecimento, desse jeito paulistano, reclamão que se incomoda facilmente com qualquer coisa, claro. Afinal, esse processo de calejamento vai tirando a paciência dessa alma perturbada.

Talvez devêssemos tentar ser mais pacientes, mais compreensivos e mais amistosos em situações normais. Provavelmente isso melhoraria nossa qualidade de vida, nosso ânimo, nosso humor, enfim, nossa relação com o mundo. Mas, se fôssemos assim, não seríamos mais paulistanos. Essa é, bem ou mal, a nossa identidade, a identidade de um povo que consegue ser incomodamente terno.


Urubú

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Pá (Conversa Urbana)

- E aí!?!
- Como é que tá?!?
Pá...
Pá, pá...
- Sumido...
- Você...
- Correria.
- Foi lá?
- Lá?
- É, pô, lá! ...
- Ahhh... fui, mas sei lá...
- O quê?
- Não sei, sei lá, fiquei meio assim...
- Sei, mas vai rolar?
- Não sei, se pá...
- Então tá, chegou.
- É.
- Falou.
- Até.

Pa, pá...


Urubú

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Dois paulistanos

Somos dois paulistanos, recém chegados à idade balzaquiana, e com bastante coisa em comum. Obviamente com muitas diferenças e uma vasta gama de divergências também. Porém, o que nos leva a produzir juntos neste espaço, como não poderia deixar de ser, são as similaridades de interesses, cada um com sua ótica peculiar e estilo próprio de manifestar suas opiniões e emoções.
A pitoresca alcunha de Boêmios Malditos surgiu meio que naturalmente durante uma conversa entre nós dois, os boêmios, dentro de um trem de metrô, a caminho do centro da cidade. Nada mais inspirador para se idealizar um projeto que tem características (iria dizer objetivo, mas não creio que realmente temos um) completamente urbanas do que uma viagem de metrô a caminho do centrão paulistano. “Boêmios”, parte auto-explicativa do nome, e “Malditos”, por nos vermos sempre a margem da opinião geral.
Enfim, queremos aqui expor idéias, impressões, sentimentos, sentidos, opiniões, gostos, desgostos, discussões, causos, casos, textos, sons e tudo o mais que julgarmos pertinente, e o que julgarmos pertinentemente impertinente. Parece algo muito aberto, e realmente é, e é essa a intenção, pelo menos a inicial. O que procuramos aqui é uma ótica própria (seria muito presunçoso de nossa parte dizer estética) e não uma temática própria.

Ok, mãos a obra então. Divirtam-se! Certamente nós o faremos.


Urubú