"Muitas vezes é melhor o desejar ter ao ter deveras."
Urubú
terça-feira, 20 de maio de 2008
segunda-feira, 19 de maio de 2008
Paulistanos: incomodamente ternos
São Paulo tem a fama de ser uma cidade fria, não só em seu clima (que nesses últimos dias tem confirmado essa máxima, mas que em boa parte do ano a contraria com dias sufocantes) como também nas relações entre as pessoas. Pois bem, utilizando-se de um olhar mais distanciado essa frieza paulistana até se confirma, mas uma pequena faísca pode esquentar essa alma que vive em uma cidade que a reprime e a mantém o tempo todo ressabiada. O mais interessante disso é, como tenho reparado, que quase sempre tal faísca é provocada pelo incômodo.
Neste último sábado fiz algo que tenho feito muito pouco: tomei um ônibus. Esse estava relativamente vazio e com alguns lugares vagos. Sentei-me naquele banco do fundo, no acento central de frente para o corredor, aquele em que ficamos sempre tensos imaginando que uma freada mais brusca do motorista nos fará ir conversar com ele, com a cara grudada no pára-brisa. Depois de acomodado olho para frente e reparo em um
monitorzinho de plasma, que incrivelmente já estão deixando de ser modernos, com a imagem de um rosto feminino se maquiando e dando instruções sobre como se maquiar. Já estava pensando no poder hipnótico que essas telinhas têm, todos em silêncio compenetrados na lição de beleza (beleza bem discutível aliás, a mulher estava com a cara pintada como uma boneca, esse tipo de exagero só pode ser para incentivar o maior consumo de cosméticos), quando alguém a meu lado dirige-se a mim reclamando que achava ridícula a programação das tais telinhas e que devia-se veicular coisas mais úteis e interessantes. Concordei com o rapaz e começamos a tirar um sarro da programação da TV Buzão, assim tivemos uma viagem rápida com um papo bacana. Após algum tempo, vendo duas senhoras começarem a conversar sobre a falta de educação dos motoristas que não as deixavam atravessarem a rua, pus-me a lembrar de outras situações que vivi ou presenciei e reparei que quase sempre essas conversações são ocasionadas por fatos que incomodaram os interlocutores.
Assim sendo, pude listar alguns locais mais propícios a essas breves amizades: ônibus, trens e metrôs (especialmente os lotados e atrasados), repartições públicas (com seus funcionários sempre prontos a te ignorar), hospitais e, sobretudo, as filas de banco (principalmente quando pensamos em seus lucros anuais absurdos divulgados pela mídia). Esta solidariedade vinda da cumplicidade em um momento de incômodo parece ser a mesma que percebemos em grande escala, quando acontecem grandes tragédias e as pessoas se mobilizam para ajudar a
desconhecidos. Claro que não estou aqui tratando dessas grandes desgraças, mas de pequenas situações cotidianas que incomodam e atrapalham a vida das pessoas. Nos grandes centros urbanos as pessoas estão sempre muito tensas e são educadas a desconfiarem de tudo e de todos a sua volta. O caso específico de São Paulo parece um pouco pior, essa tensão alcança níveis estratosféricos e não há grandes válvulas de escape, como a praia para o carioca, por exemplo. Para qualquer lugar onde olhemos a cidade nos agride, com um cinza bélico, um cheiro químico e uma barulheira que nem ouvimos mais, porém nos perturba sigilosamente. Isso tudo vai minando a alma paulistana e a deixando cada vez mais dura, calejada. No entanto essa dureza está sempre sujeita a um enternecimento, desse jeito paulistano, reclamão que se incomoda facilmente com qualquer coisa, claro. Afinal, esse processo de calejamento vai tirando a paciência dessa alma perturbada.
Talvez devêssemos tentar ser mais pacientes, mais compreensivos e mais amistosos em situações normais. Provavelmente isso melhoraria nossa qualidade de vida, nosso ânimo, nosso humor, enfim, nossa relação com o mundo. Mas, se fôssemos assim, não seríamos mais paulistanos. Essa é, bem ou mal, a nossa identidade, a identidade de um povo que consegue ser incomodamente terno.
Neste último sábado fiz algo que tenho feito muito pouco: tomei um ônibus. Esse estava relativamente vazio e com alguns lugares vagos. Sentei-me naquele banco do fundo, no acento central de frente para o corredor, aquele em que ficamos sempre tensos imaginando que uma freada mais brusca do motorista nos fará ir conversar com ele, com a cara grudada no pára-brisa. Depois de acomodado olho para frente e reparo em um
monitorzinho de plasma, que incrivelmente já estão deixando de ser modernos, com a imagem de um rosto feminino se maquiando e dando instruções sobre como se maquiar. Já estava pensando no poder hipnótico que essas telinhas têm, todos em silêncio compenetrados na lição de beleza (beleza bem discutível aliás, a mulher estava com a cara pintada como uma boneca, esse tipo de exagero só pode ser para incentivar o maior consumo de cosméticos), quando alguém a meu lado dirige-se a mim reclamando que achava ridícula a programação das tais telinhas e que devia-se veicular coisas mais úteis e interessantes. Concordei com o rapaz e começamos a tirar um sarro da programação da TV Buzão, assim tivemos uma viagem rápida com um papo bacana. Após algum tempo, vendo duas senhoras começarem a conversar sobre a falta de educação dos motoristas que não as deixavam atravessarem a rua, pus-me a lembrar de outras situações que vivi ou presenciei e reparei que quase sempre essas conversações são ocasionadas por fatos que incomodaram os interlocutores.Assim sendo, pude listar alguns locais mais propícios a essas breves amizades: ônibus, trens e metrôs (especialmente os lotados e atrasados), repartições públicas (com seus funcionários sempre prontos a te ignorar), hospitais e, sobretudo, as filas de banco (principalmente quando pensamos em seus lucros anuais absurdos divulgados pela mídia). Esta solidariedade vinda da cumplicidade em um momento de incômodo parece ser a mesma que percebemos em grande escala, quando acontecem grandes tragédias e as pessoas se mobilizam para ajudar a
desconhecidos. Claro que não estou aqui tratando dessas grandes desgraças, mas de pequenas situações cotidianas que incomodam e atrapalham a vida das pessoas. Nos grandes centros urbanos as pessoas estão sempre muito tensas e são educadas a desconfiarem de tudo e de todos a sua volta. O caso específico de São Paulo parece um pouco pior, essa tensão alcança níveis estratosféricos e não há grandes válvulas de escape, como a praia para o carioca, por exemplo. Para qualquer lugar onde olhemos a cidade nos agride, com um cinza bélico, um cheiro químico e uma barulheira que nem ouvimos mais, porém nos perturba sigilosamente. Isso tudo vai minando a alma paulistana e a deixando cada vez mais dura, calejada. No entanto essa dureza está sempre sujeita a um enternecimento, desse jeito paulistano, reclamão que se incomoda facilmente com qualquer coisa, claro. Afinal, esse processo de calejamento vai tirando a paciência dessa alma perturbada.Talvez devêssemos tentar ser mais pacientes, mais compreensivos e mais amistosos em situações normais. Provavelmente isso melhoraria nossa qualidade de vida, nosso ânimo, nosso humor, enfim, nossa relação com o mundo. Mas, se fôssemos assim, não seríamos mais paulistanos. Essa é, bem ou mal, a nossa identidade, a identidade de um povo que consegue ser incomodamente terno.
Urubú
sexta-feira, 16 de maio de 2008
Fabuloso Mundo de Peter Pan localizado nas Terras Tupiniquins do Faz-de-Conta
Às vezes tenho um estalo e penso em uma mesa de Bar: como um simples “ser” dos livros infantis pode capturar todos os brasileiros e levá-los ao mundo de Faz-de-conta.
No próprio Bar já vivemos nesse mundo, acreditando que os petiscos seguem todas as regras de higienização, que a cerveja está gelada, que as mulheres serão todas legais e compreensíveis quanto voltarmos para casa, que a conta estará certa, etc... etc... etc... Se neste local sagrado ocorre isso, imagine nas demais terras tupiniquins onde tudo não passa de uma fantasia (por sinal, será que é isto que faz o Brasil a terra do carnaval?). Alguns dias sob a garoa e a rotina sufocante de São Paulo eu consegui descobrir isso, vamos aos fatos (adoro listar os exemplos!!!!!):
- Na terra de Faz-de-Conta construída por Juscelino Kubistchek, onde os garotos eleitos que nunca crescem e vivem fazendo traquinagens, continuam colecionando CPIs e escândalos todos os meses. Nós, os outros garotos que não crescemos (apesar do Plano PAC do garoto Lula), deixamos de cobrar as ações necessárias para que os garotos eleitos fiquem de castigo. Você sabe o porquê disso? Para comentarmos e ficarmos apaixonados com os casos dos Pais que mataram a sua filha. Hoje o Brasil só fala disso, criou-se um romance em volta da tragédia que envolve somente os Pais, a Filha e a Polícia.
Os verdadeiros assuntos que precisam do nosso apoio são colocados de lado para fofocarmos sobre o assassinato e o mais novo lançamento da impressa feita por crianças: o “ídolo” Ronaldo (nunca achei que ele jogasse tanta bola!).
- As próprias CPIs são faz-de-contas, onde o perigoso Capitão Gancho não resolve nada e não pune ninguém. Você ainda acredita nelas?
- Onde achamos que as filas de idosos ou gestantes são necessárias (nesta hora vocês devem estar me xingando), mas se o povo criança tivesse um pouco de educação e respeito não precisaríamos de leis assim. Isso também vale para os idosos e gestantes que aproveitam a situação para terem uma vantagem sobre os outros. Quem nunca viu um idoso indo no banco pagar as contas para um amigo jovem ou uma gestante passando na sua frente com uma criança com mais de 10 anos no colo????? Peter Pan além de nos capturar, deixou todo mundo louco por uma traquinagem, a famosa brincadeira da Lei de Gerson!!!!!
- O próprio trânsito é uma imensa brincadeira de criança, com as regras embasadas na paciência e nas agilidades dos espertinhos em passar os carros a qualquer custo, nem que isso cobre a vida dele e a sua!
Bem, acredito que não temos mais solução, seremos para sempre crianças!!! Garçom passa a régua e vê quanto fica os refrigerantes (tubaínas é claro!), pois bebidas alcoólicas não são liberadas para crianças...
3M
No próprio Bar já vivemos nesse mundo, acreditando que os petiscos seguem todas as regras de higienização, que a cerveja está gelada, que as mulheres serão todas legais e compreensíveis quanto voltarmos para casa, que a conta estará certa, etc... etc... etc... Se neste local sagrado ocorre isso, imagine nas demais terras tupiniquins onde tudo não passa de uma fantasia (por sinal, será que é isto que faz o Brasil a terra do carnaval?). Alguns dias sob a garoa e a rotina sufocante de São Paulo eu consegui descobrir isso, vamos aos fatos (adoro listar os exemplos!!!!!):
- Na terra de Faz-de-Conta construída por Juscelino Kubistchek, onde os garotos eleitos que nunca crescem e vivem fazendo traquinagens, continuam colecionando CPIs e escândalos todos os meses. Nós, os outros garotos que não crescemos (apesar do Plano PAC do garoto Lula), deixamos de cobrar as ações necessárias para que os garotos eleitos fiquem de castigo. Você sabe o porquê disso? Para comentarmos e ficarmos apaixonados com os casos dos Pais que mataram a sua filha. Hoje o Brasil só fala disso, criou-se um romance em volta da tragédia que envolve somente os Pais, a Filha e a Polícia.
Os verdadeiros assuntos que precisam do nosso apoio são colocados de lado para fofocarmos sobre o assassinato e o mais novo lançamento da impressa feita por crianças: o “ídolo” Ronaldo (nunca achei que ele jogasse tanta bola!).
- As próprias CPIs são faz-de-contas, onde o perigoso Capitão Gancho não resolve nada e não pune ninguém. Você ainda acredita nelas?
- Onde achamos que as filas de idosos ou gestantes são necessárias (nesta hora vocês devem estar me xingando), mas se o povo criança tivesse um pouco de educação e respeito não precisaríamos de leis assim. Isso também vale para os idosos e gestantes que aproveitam a situação para terem uma vantagem sobre os outros. Quem nunca viu um idoso indo no banco pagar as contas para um amigo jovem ou uma gestante passando na sua frente com uma criança com mais de 10 anos no colo????? Peter Pan além de nos capturar, deixou todo mundo louco por uma traquinagem, a famosa brincadeira da Lei de Gerson!!!!!
- O próprio trânsito é uma imensa brincadeira de criança, com as regras embasadas na paciência e nas agilidades dos espertinhos em passar os carros a qualquer custo, nem que isso cobre a vida dele e a sua!
Bem, acredito que não temos mais solução, seremos para sempre crianças!!! Garçom passa a régua e vê quanto fica os refrigerantes (tubaínas é claro!), pois bebidas alcoólicas não são liberadas para crianças...
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quinta-feira, 15 de maio de 2008
Festa do Caralho
“A sala está sufocante, as gravatas encharcadas, os cafés esgotados, os ternos abarrotados, os ânimos exaltados, as frustrações batem à porta, os relatórios agridem, mais um pouco, mais pouco... em poucas palavras: Você foi convidado para a festa do Caralho e acabou indo fantasiado de Cu, todos já estão bêbados e olhando para você.”
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terça-feira, 13 de maio de 2008
Cansei!...
Cansei!
Cansei de me cansar.
E desta gente que vive se cansando,
Que diz estar cansada de tudo.
“Cansei disso”
“Cansei daquilo”
Chega!
Eta povinho que vive cansado!
Eta mundo cansativo!
É tanta canseira, tanta canseira,
Que me canso só de pensar.
“Cansei dessa violência!”
“Cansei dessa cidade!”
“Cansei desse emprego!”
“Cansei desses políticos!”
Se as pessoas descansassem um pouco,
Se parassem um segundo,
Poderiam, descansados,
Reunir forças para mudar tudo o que as cansam.
Mas todos estão sempre correndo.
Logo, sempre cansados.
Como não estar cansado
Se não se pára um só segundo pra descansar?
Então chega!
Já que ninguém descansa,
Descanso eu.
Cansei...
Urubú
Cansei de me cansar.
E desta gente que vive se cansando,
Que diz estar cansada de tudo.
“Cansei disso”
“Cansei daquilo”
Chega!
Eta povinho que vive cansado!
Eta mundo cansativo!
É tanta canseira, tanta canseira,
Que me canso só de pensar.
“Cansei dessa violência!”
“Cansei dessa cidade!”
“Cansei desse emprego!”
“Cansei desses políticos!”
Se as pessoas descansassem um pouco,
Se parassem um segundo,
Poderiam, descansados,
Reunir forças para mudar tudo o que as cansam.
Mas todos estão sempre correndo.
Logo, sempre cansados.
Como não estar cansado
Se não se pára um só segundo pra descansar?
Então chega!
Já que ninguém descansa,
Descanso eu.
Cansei...
Urubú
terça-feira, 6 de maio de 2008
Monólogos solitários antes do último gole
Às vezes tenho um estalo e penso como os nativos tupiniquins lidam com a solidão em uma mesa de bar. Acredito, após várias “monodiscussões” (pois o meu companheiro de blog não estava neste momento), que o Bar pode ser um grande lugar para a reflexão e in-reflexão. Vamos aos fatos:
Cidade de São Paulo, o cinza que cobre o céu e o asfalto, a fina garoa com poluição que escorre pelo cabelo, o stress do dia-a-dia a cada esquina, os semáforos tentando comunicação inutilmente, o sentimento de solidão entre milhões de pessoas que preferem morar no caos a de procurar outro lugar. Mas o que sustenta todo o bom senso antes que a própria população cometa um genocídio ou uma conversão em massa para alguma igreja, católica ou evangélica???? A resposta é simples e encontra-se abaixo dos meus tênis imundos: O Bar!
Todos os freqüentadores de bares são amigos mútuos antes de beber (imagem depois de alguns copos). Todas as divergências são discutidas sem nenhum problema (até mesmo a tríplice do mal: Futebol, Política e Religião), com argumentos sofisticados e criativos. Claro que no dia seguinte muitos não se lembraram de nada, a não ser da terrível dor de cabeça. Grandes pensamentos ou até a resolução dos problemas no mundo, do futebol, da igreja, de Israel e da Palestina serão apagadas com um simples ENGOV (nos próximos capítulos discutiremos este remédio do mal, criado pelo Capitalismo), mas quem se importa? No dia seguinte iremos ao mesmo bar e discutiremos as mesmas coisas e chegaremos a conclusões iguais ou diferentes (manda um ENGOV!!!!!). Isso é reflexão! O bar mantém o seu maior pesadelo longe. Acho que todos os donos de bares deveriam formar-se psicólogos ou sociólogos. Adeus a solidão!!!!!
Tudo ótimo, tudo bom, mas vamos para as in-reflexões. O bar não ajuda em nada à distância de alguém especial. Aquele alguém que tem nome, que tem o seu telefone, que já freqüentou a sua casa, que te ajudou nos piores e melhores momentos. O bar está cheio de pessoas, mas ao mesmo tempo está vazio. A cada hora que passa no relógio acima da bancada das bebidas a sensação de solidão o acompanha. Ninguém ali conseguirá criar soluções milagrosas ou pior, nem o ENGOV (ou milhares de Engovs) farão a sensação sumir... Pior, tudo no bar fará você lembrar a pessoa: as azeitonas pretas serão os olhos, as cervejas geladas serão os pés dela numa noite fria, as frutas da caipirinha serão seus lábios...
Podemos, ou não, encontrar as respostas em um bar na cidade cinzenta ou, se preferir, faça o que eu faria: “- Fecha a minha conta, que eu tentarei mais uma vez consertar as coisas do mundo ou do meu mundo!!!”
Obs: não se esqueçam de conferir a conta, pois nos momentos de in-reflexão, os donos dos bares tornam-se sádicos sem coração e cobram coisas que você não consumiu.
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Cidade de São Paulo, o cinza que cobre o céu e o asfalto, a fina garoa com poluição que escorre pelo cabelo, o stress do dia-a-dia a cada esquina, os semáforos tentando comunicação inutilmente, o sentimento de solidão entre milhões de pessoas que preferem morar no caos a de procurar outro lugar. Mas o que sustenta todo o bom senso antes que a própria população cometa um genocídio ou uma conversão em massa para alguma igreja, católica ou evangélica???? A resposta é simples e encontra-se abaixo dos meus tênis imundos: O Bar!

Todos os freqüentadores de bares são amigos mútuos antes de beber (imagem depois de alguns copos). Todas as divergências são discutidas sem nenhum problema (até mesmo a tríplice do mal: Futebol, Política e Religião), com argumentos sofisticados e criativos. Claro que no dia seguinte muitos não se lembraram de nada, a não ser da terrível dor de cabeça. Grandes pensamentos ou até a resolução dos problemas no mundo, do futebol, da igreja, de Israel e da Palestina serão apagadas com um simples ENGOV (nos próximos capítulos discutiremos este remédio do mal, criado pelo Capitalismo), mas quem se importa? No dia seguinte iremos ao mesmo bar e discutiremos as mesmas coisas e chegaremos a conclusões iguais ou diferentes (manda um ENGOV!!!!!). Isso é reflexão! O bar mantém o seu maior pesadelo longe. Acho que todos os donos de bares deveriam formar-se psicólogos ou sociólogos. Adeus a solidão!!!!!
Tudo ótimo, tudo bom, mas vamos para as in-reflexões. O bar não ajuda em nada à distância de alguém especial. Aquele alguém que tem nome, que tem o seu telefone, que já freqüentou a sua casa, que te ajudou nos piores e melhores momentos. O bar está cheio de pessoas, mas ao mesmo tempo está vazio. A cada hora que passa no relógio acima da bancada das bebidas a sensação de solidão o acompanha. Ninguém ali conseguirá criar soluções milagrosas ou pior, nem o ENGOV (ou milhares de Engovs) farão a sensação sumir... Pior, tudo no bar fará você lembrar a pessoa: as azeitonas pretas serão os olhos, as cervejas geladas serão os pés dela numa noite fria, as frutas da caipirinha serão seus lábios...
Podemos, ou não, encontrar as respostas em um bar na cidade cinzenta ou, se preferir, faça o que eu faria: “- Fecha a minha conta, que eu tentarei mais uma vez consertar as coisas do mundo ou do meu mundo!!!”
Obs: não se esqueçam de conferir a conta, pois nos momentos de in-reflexão, os donos dos bares tornam-se sádicos sem coração e cobram coisas que você não consumiu.
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quinta-feira, 1 de maio de 2008
Apologia à vadiagem

Não, hoje não é dia do trabalho. Em 1886, um grupo de trabalhadores que lutava por direitos trabalhistas foi assassinado pela polícia yankee. Não me alongarei nessa história tão conhecida, porém sempre ignorada pelos meios de comunicação que insistem em disseminar aos quatro ventos que 1º de maio é o dia do trabalho. Dia 1º de maio é dia do trabalhador, em homenagem a esses bravos trabalhadores.
Só quero com isso deixar claro meu repúdio a essa manipulação feita para alardear essa ideologia do trabalho. Será mesmo que o trabalho dignifica o Homem?
É senso comum acreditarmos que uma pessoa honesta e honrada tem um trabalho. Por que? Diz-se que alguém decente deve manter-se, e a sua família, exercendo um trabalho útil a sociedade. E que o nível de sua dignidade é diretamente proporcional a quantidade de tempo que esse indivíduo passa trabalhando. Natural? Pois é, nem sempre foi assim. Na antigüidade o trabalho era considerado indigno, e era exercido pelos escravos ( a própria palavra "trabalho" tem origem latina, tripalium, que era um instrumento de tortura romano). Assim, as pessoas livres tinham tempo livre de sobra para passar os dias a beber vinho e filosofar. E nossa laboriosa sociedade é baseada nos conceitos criados por esses gregos bêbados e vagabundos.
Até a idade média o trabalho era regrado pela natureza. Começava-se o dia com o sol e terminava-se quando ele se punha. Épocas de plantação e colheita determinavam o quê e quando fazer.
Tá bom, eu sei que vivemos em um chamado "mundo moderno", que a industrialização mudou tudo, que hoje nos regramos pelo relógio, time is money, blá, blá, blá. Sei de tudo isso. Mas não me venham com este papo de liberdade. Ela não existe! Não existe integralmente a ninguém e só a exerce minimamente quem não tem preocupações com dinheiro. Os outros 99,9% das pessoas estão presas a esse compromisso. Ou você trabalha ou está condenado a não viver (considerando nossas leis e nossa moral, é claro). Essa idéia me causa uma profunda agonia. Viver preso a esse eterno compromisso é algo que contraria qualquer conceito de liberdade.
Recentemente assisti a uma palestra do senador Eduardo Suplicy, onde ele explicava seu projeto de Renda Básica da Cidadania, que, a grosso modo, garante uma renda de sobrevivência digna, de mesmo valor, a todos os cidadãos, do mendigo ao mega empresário. A partir disso, comecei a refletir sobre os tais conceitos de liberdade e valorização do trabalho. Creio que essa seria uma forma de nos aproximarmos de algo parecido com a tal liberdade. Quem quiser luxo, que trabalhe.
Quero ser uma bêbado vagabundo, se assim o pretender. Ser honestamente vagabundo, eticamente incorreto, como diria um grande amigo. Quem sabe se um desses bêbados vagabundos, devidamente financiado pela sociedade, não possa criar as bases de um mundo menos injusto e cruel?
Urubú
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